Na gestação normal, a glândula tireoide aumenta de volume e produz 50% mais hormônios em relação ao estado pré-gestacional. Logo, a gestação  pode ser considerada como um teste fisiológico para avaliação da reserva tireoidiana. Por isso, a avaliação dos marcadores tireoidianos no sangue deve fazer parte de todo pré-natal.  Mulheres com reserva tireoidiana limítrofe e com anticorpos contra a tireoide positivos têm grande chance de desenvolverem hipotireoidismo na gestação.

Essa maior demanda se deve ao fato de que a produção hormonal da tireoide  fetal só se torna atuante a partir do 4º mês de gestação. Até lá, o bebê usa dos hormônios maternos que chegam até ele através da placenta. Isso é fundamental para o crescimento fetal e seu desenvolvimento neurológico. Daí a importância do acompanhamento da função tireoidiana das mulheres, mesmo antes de gestar, já que as primeiras semanas são essenciais para a formação fetal.

A maior necessidade de hormônios tireoidianos durante a gestação deve ser levada em conta  também na mulher com hipotireoidismo. Nesses casos, a dose de reposição hormonal que ela normalmente utiliza deve ser aumentada em torno de 30% para atender à demanda fetal. Após o parto, os indicadores hormonais no sangue geralmente revelam que a dose deve ser reduzida para os valores pré-gestacionais.

Nos últimos 20 anos, inúmeras publicações científicas são unânimes em revelar estreita relação entre a disfunção tireoidiana e problemas materno-fetais tais como aborto espontâneo, hipertensão arterial gestacional, diabetes gestacional, tireoidite pós-parto e redução do Quociente Intelectual (QI) do bebê. Com esses dados em mãos a Endocrino Society  em suas últimas Diretrizes recomenda que toda gestante deve receber suplementação de iodo adicionado aos complexos vitamínicos da gestação. Isso deve ser feito para garantir a matéria prima para a produção dos hormônios tireoidianos tão necessários ao desenvolvimento fetal. A iodação do sal de cozinha, obrigatória por lei na maioria dos países do mundo, incluindo o Brasil, já atende a essa maior necessidade de proteção à gestante e seu bebê.

Infelizmente ainda não há um consenso a cerda do tratamento de alterações pequenas na função tireoidiana que ocorrem na gestação. Algumas delas não são propriamente doenças, mas indícios. A preocupação com essas variações do normal se deve ao fato de que podem ser muito importantes para o feto em suas primeiras semanas de vida. Um recente estudo publicado em 2010 revelou um aumento da taxa de abortamentos de 69% em mulheres com pequenas alterações hormonais em relação aquelas com valores normais. Isso pode ser relevante, mas ainda é pouco. Precisamos de mais estudos e de mais evidências para o tratamento dessas pacientes.

Muitos estudos estão em andamento para que tenhamos maiores evidências dos benefícios do tratamento de alterações ainda indeterminadas, mas um detalhe é definitivamente importante. Toda mulher deve ter uma avaliação da tireoide antes de gestar ou em sua primeira visita do pré-natal.

CITEN

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