Médico bom é aquele que solicita muitos exames. Você também pensa assim? Gosta quando seu médico pega aquela solicitação cheia de quadradinhos e faz um x de cima a baixo? Sinto muito, mas tudo indica que você está equivocado.

Desde 2012, uma campanha envolvendo várias sociedades médicas americanas vem chamando nossa atenção um problema. O excesso de exames laboratoriais e condutas médicas errôneas tomadas a partir deles. O argumento é de que muitos testes e procedimentos médios, realizados aleatoriamente, oneram os serviços e planos de saúde, não ajudam ao paciente e pelo contrário, geram exames ainda mais sofisticados para elucidar pequenas alterações nos primeiros. O pior é que pequenas alterações, simples variação da normalidade, podem levar a erros diagnósticos.

Desde então, a campanha americana vem ganhando adesão de cerca de 60 sociedades de especialidades, tendo sido elaborada uma longa lista de procedimentos e testes laboratoriais que somente deveriam ser solicitados frente a evidências clínicas contundentes. No Brasil, aderência ao programa ainda é acanhada, destacando a participação da Sociedade Brasileira de Cardiologia e da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) através do seu Departamento de Tireoide.

Falando especificamente da SBEM, em 2017 foram elaboradas 5 recomendações sobre exames que não devem ser realizados na avaliação das doenças tireoidianas: (1) Não solicitar a dosagem de T3 Reverso, (2) não dosar tireoglobulina na avaliação inicial de nódulos tireoidianos, (3) não usar marcadores moleculares na avaliação inicial de nódulos tireoidianos, (4) não tratar o hipotireoidismo com T3 isolado ou em associação deste com o T4 e (5) não repetir a dosagem dos anticorpos antitireoideanos (anticorpo anti TPO e anti tireoglobulina) no seguimento da tireoidite autoimune.

A campanha americana é chamada de “choosing wisely” ou “escolhendo sabiamente” e faz uma avaliação negativa da solicitação frequente e precoce da densitometria óssea, dos marcadores sanguíneos de câncer, da tomografia computadorizada na suspeita de sinusite, do Papanicolau em mulheres abaixo de 21 anos e do eletrocardiograma e teste de esforço para a pesquisa de problemas cardíacos em pessoas sem sintomas sugestivos.

Esse assunto geralmente causa discussões acaloradas, pois vamos encontrar opiniões distintas, inclusive dos que alertam para um cerceamento por parte dos convênios sobre a decisão médica e o direito do paciente. Por outro lado, sabemos que exames devem se seguir a uma hipótese diagnóstica, que por sua vez advém de manifestações clínicas a serem elucidadas. Nossa posição limita-se a levantar a discussão a cerca da real necessidade de tantos exames, pois isso beneficiará nosso paciente, tanto em relação à sua saúde quanto aos seus gastos para mantê-la em ordem.

 

CITEN

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